
UMA CRISE ANUNCIADA E PREVISÍVEL (do começo ao fim)
HÉLIO FERNANDES
Haja o que houver1.
Sarney não continuará na presidência do Senado. Pode demorar um pouco mais, um pouco menos, mas o presidente do Senado não será mais do Maranhão.
Haja o que houver2.
O encontro Lula-Sarney pode decidir a forma da saída de Sarney. Mas não tem uma chance em um milhão de operar o “milagre” de manter Sarney no cargo.
Haja o que houver3.
Lula está completamente por fora de tudo. No Recife, antes de telefonar para a senadora Ideli Salvatti,o presidente da República confidenciou: “Se eu não conseguir manter um amigo como o Sarney num cargo como esse, será um desastre”. Será.
Haja o que houver4.
O PSDB não ganhará a presidência do Senado, a não ser que vença a eleição para a substituição de Sarney. Vitória que é praticamente impossível.
Haja o que houver5.
O PMDB pretende manter a presidência. Acontece que o partido está completamente dividido, os que são contra Lula não aceitam um nome que seja a favor, e vice-versa.
Haja o que houver6.
Nada surpreendente: o único nome que une o PMDB é Romero Jucá. E além disso, se elege com facilidade. Foi líder de FHC, o PSDB vota nele. Líder de Lula, o PT-PT, mesmo irritado (o PT-PT está sempre irritado), dará o voto a Jucá.
Haja o que houver7.
Sarney saindo (sairá), outro grande derrotado será Renan Calheiros. Obteve uma recuperação impressionante, mas foi afoito e inconsequente, jogou tudo fora na tramitação da CPI da Petrobras.
Haja o que houver8.
A arrogância do senador de Alagoas foi tão grande quanto o seu caminho de volta. Mostrou habilidade para voltar e não para ficar. Renan apostou tudo em Sarney e achou que assim se capitalizava de forma irreversível. Errou na análise, de forma autodestruidora.
Haja o que houver9.
Em Langley, na Virginia, na sede principal da CIA, há um cartaz grande com a inscrição-síntese-definição: “Operador de campo é operador de campo, o resto é burocracia”. Ah! Renan, a Virginia não é tão longe assim.
Haja o que houver10.
Tião Viana já se julgava presidente do Senado se lançou com um discurso sem palavras, só com apartes. Lula não gostou, e Lula não gostando é morte certa. Desgaste ainda maior, sendo o único do PT-PT que não foi à reunião com Sarney.
Haja o que houver11.
Ficou mais do que evidente o desagrado do planalto-Alvorada com o senador Mercadante. Eleito espetacularmente, esperava se Ministro da fazenda ou do Desenvolvimento. Há 6 anos e meio espera, ninguém o chama. Por quê?
Haja o que houver12.
A crise do Senado não é da democracia, mas tem a ver com ela. Com essa forma de representatividade e de escolha, não existe democracia. Só crise, que irá se agravar com o VOTO DE LISTA e a possível prorrogação de mandatos.
Haja o que houver13.
Estão fazendo tremenda confusão entre licença e renúncia. Sarney admite RENUNCIAR à presidência do Senado e se LICENCIAR do mandato. O inverso de maneira alguma. E já deixou bem claro que não demora a tomar uma posição.
Haja o que houver14.
Com isso, Sarney tem dito que fortalece seu partido, o PMDB. E deixa em boa posição o aliado PT-PT. Porque se aceitasse se LICENCIAR da presidência, daria ganho de causa ao PSDB, o vice assumiria e ficaria. E esse vice é do PSDB.
Haja o que houver15.
Renunciando, terá que haver eleição imediatamente. Sarney é bastante esperto para saber que nesse caso “a confusão será geral”. (Como é acadêmico, cita Machado de Assis).
Haja o que houver16.
O ainda presidente tem certeza de uma coisa: ninguém vai conseguir se eleger. 25 por cento são suplentes. 15 por cento representam o grupo chamado de “moralista” e portanto não se elege para coisa alguma.
Haja o que houver17.
Sobram então 60 por cento do total, que se divide em 4 ou 5 grupos, e ficarão brigando ferozmente por uma presidência que não vale mais nada.
Nessa encruzilhada (e isso não tem nada a ver com Sarney), podem se estarrecer à vontade: mas o favorito é Renan Calheiros. Textual de senadores para o repórter “O próprio Lula apoiará o senador de Alagoas, em nome do fortalecimento da base”. Ha! Ha! Ha!
PS- Por que Sarney quer RENUNCIAR à presidência e se LICENCIAR do mandato? Elementar. Vai viajar 1 ou 2 anos, poderá voltar para a sucessão de 2010. E não se descarta o que já revelei aqui: aceitaria ser embaixador. A preferência é a França, mas não é exclusividade.
PS2- Também admite ser presidente da Academia, é acadêmico há muitos anos, nunca foi presidente. Já falou sobre isso com o amigo acadêmico, Marcos Vilaça. E ao repórter, há muitos anos, revelou: “Posso presidir a Academia sem morar no Rio, Rui Barbosa fez isso”.
* * *(Haja o que houver, cumprem o que está no título destas notas ou não haverá Senado.Hoje, existe?)
TRIBUNA DA IMPRENSA
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