terça-feira, 27 de julho de 2010


Vendeu a filha para não morrer de fome

A tragédia das águas que deixou milhares de desabrigados em 19 municípios do interior de Alagoas persiste em seu rastro de miséria implacável, apesar do grande sentimento de solidariedade de muitos alagoanos, pessoas de outros estados e até de fora do país.
Para muitos que perderam tudo restam poucas esperanças no amanhã e nem a fé em Deus (demonstrada pela maioria) é capaz de lhes fazer crer que um dia possam restabelecer suas vidas, seus negócios, o sustento de suas famílias.
Conversei com um cidadão que perdeu tudo com a enchente. Tinha uma boa residência, uma casa comercial construída em 35 anos de luta diária, com sacrifícios, uma família para sustentar e muitas dívidas com fornecedores. Ele e sua família, desabrigados estão morando de favor na casa de um cunhado em Maceió. Todos os dias volta à sua cidade e visita o local onde outrora viveu e trabalhou duro e honestamente. Confessa-me que nem ele sabe o que vai fazer ali, pois a cada visita “é um aperto no coração que não tem tamanho. Venho aqui mais para chorar sem a presença de minha família, para não deixá-los mais tristes ainda. Já tive vontade de fazer uma besteira, mas de que adiantaria? Deixaria ainda mais desespero e dor para aqueles que mais amo”. Foi procurado por um de seus credores que lhe disse dar um prazo razoável, mas não poderia perdoar-lhe a dívida. Pagar como? Como o que se nada lhe restou? E ele diz do intimo do seu caráter de homem honesto: “Vou à luta, reconstruirei tijolo por tijolo e pagarei todas as minhas dívidas, com a graça e os desígnios de Deus”. Para mim é um herói anônimo na multidão de sobreviventes da fúria da natureza e Deus há de dar-lhe forças para reconstruir a vida.
Na mesma cidade outra história de cortar o coração me foi contada e fui conferir de perto. J.M.S. é agricultor e está desempregado há quase um ano. Vivia de fazer bicos e sua mulher trabalhava como empregada doméstica para sustentar quatro filhos menores. A criança mais nova, uma menina de seis meses de idade. Com a enchente perderam o barraco na beira do rio, tudo o que tinha dentro de casa, inclusive um modesto aparelho de televisão que era o único divertimento da família. E não ficou por ai: a mulher também perdeu o emprego, pois a casa na qual trabalhava foi levada pelas águas e os seus antigos patrões saíram da cidade. Levaram também a filha mais nova do nosso personagem lhe pagando a quantia de quatrocentos reais. Perguntei-lhe: como você teve coragem de vender a sua própria filha? Recebi uma resposta e uma lição: “Vendi não seu moço. Eu dei minha filha pra ela não morrer de fome e sei que aquelas pessoas são gente de bem. O dinheiro é para dar de comer aos meninos enquanto durar. Depois só Deus sabe como a gente vai viver. O senhor já viu um filho seu chorar de fome e não poder lhe dar nada, pois nada tem? Queria eu que aparecesse outras almas bondosas e levassem os outros, só assim eu teria sossego, pois do jeito que a coisa tá eu não sei até quando eles vão viver”.
Você que está lendo este artigo pode também promover um gesto de cidadania e amor ao próximo. Não custa muito caro e terá um significado imenso. Vá a uma dessas cidades atingidas pela tragédia, saia do conforto do seu lar, do aconchego do seu escritório e conheça de perto a dor do seu irmão. Pratique um gesto de amor. Adote uma família!

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